|
Cinderela
que saiu da rua
por
Turíbio Leite de Barros Neto
O
esporte tem histórias fantásticas. Histórias
de heróis, ídolos nacionais, verdadeiros exemplos
de bravura e de conquistas que emocionaram e nos fazem resgatar
sentimentos às vezes esquecidos.
Entretanto, muitas vezes os fatores mais emocionantes do esporte
não são aqueles coroados por medalhas olímpicas
ou títulos mundiais. Uma dessas histórias é
o retrato da vida de uma ex-menina de rua. Ana
Luíza dos Anjos Garcez é seu nome. Ela tem hoje
40 anos. Foi criada na Febem até os 18, de onde saiu para
o seu primeiro e único emprego como doméstica. Roubou
a patroa e fugiu para a rua, onde viveu por 16 anos.
Morou em diversos pontos do centro da cidade de São Paulo,
cheirou cola, benzina, cocaína e outros entorpecentes. Roubava
para manter o vício. Com medo de sofrer violência sexual,
vestia-se como garoto, com a cabeça raspada e roupas largas.
Mesmo envolvida com as drogas, sempre tratou com carinho as crianças
na rua, procurando ensiná-las a evitar as drogas. Era conhecida
na rua como 'Tia Punk' porque vivia cercada de crianças que
protegia.
Mudança
Sua vida começou a mudar há seis anos, quando o destino
a fez assistir por acaso a famosa cena do filme "Carruagens
de Fogo". Ficou emocionada com a corrida e a música
e resgatou os bons sentimentos do fundo de seu coração.
Decidiu então começar a correr. Teve o apoio dos meninos
de rua, que a transformaram numa "Cinderela", roubando
roupas apropriadas, tênis e dinheiro para as primeiras inscrições.
Ela conta que aproveitou a experiência e o "treinamento"
adquiridos correndo da polícia para iniciar a carreira de
atleta. Ocorre que apesar de todas as adversidades da vida, Ana
era um "talento esportivo" não-detectado, como
pudemos recentemente constatar por um teste realizado no Cemafe.
Para se ter uma idéia dessa herança genética,
basta lembrar que ela correu e completou sua primeira maratona correndo
com o saquinho de cola escondido na mão.
Um 'pai'
Há cinco anos corre seriamente e está livre das drogas.
Resolveu deixar o vício para recuperar plenamente seu potencial
físico. Aí deslanchou e começou a ganhar prêmios.
Desde junho 1999, encontrou um "pai". O secretário
de Esportes da Prefeitura de São Paulo, Fausto Camunha, a
adotou na Secretaria Municipal, onde morou e recebeu alimentação
adequada, atendimento médico, treinamento e, principalmente,
carinho.
Apesar de seus 40 anos, Ana é hoje uma atleta de elite, colocando-se
entre as principais corredoras de longa distância do Estado.
Ganhou várias provas e inúmeros troféus, fruto
de sua nova vida e condições que agora lhe são
proporcionadas. O maior troféu que hoje ostenta, no entanto,
é o que ganhou em uma corrida em especial: a vitória
na corrida da vida que o esporte lhe deu!
______________________________
* Turíbio Leite de Barros Neto é professor-adjunto
e coordenador do Centro de Medicina Esportiva da Universidade Federal
de São Paulo e fisiologista do SPFC
|
|